Há cerca de dez anos, o excelente documentário “Lusofonia, A R(evolução)”, produzido pela escola musical de uma bebida energética, mostrava na perfeição como desde os anos 90, embora com raízes anteriores, Lisboa e os seus subúrbios se estavam a transformar num enorme cadinho de novas músicas, fruto da mistura de pessoas que – nascidas em Portugal ou nos países em que se fala português – começaram a cruzar variadíssimos géneros nacionais e das suas ex-colónias (Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique…) com ritmos anglo-saxónicos como o hip-hop, o jungle, o drum’n’bass, a house ou o tecno. Nesse histórico documentário apareciam Sara Tavares e os Cool Hipnoise, Carlos do Carmo e os Buraka Som Sistema, Sam The Kid e Kalaf. Também fruto desse caldeirão vibrante de criatividade, DJ Marfox – que começou a sua carreira há exactamente dez anos -- é um DJ português, filho de um casal de naturais de São Tomé e Príncipe e que cruza os ritmos angolanos do kuduro ou da tarraxinha com deep house e outras formas de dança electrónica. E é mais um dos músicos/DJs de origem africana a divulgar no estrangeiro esta “cena lisboeta” em que o passado e o presente, o orgânico e o sintetizado, o sul e o norte se cruzam sem espartilhos nem barreiras.
DJ Marfox – agora uma das figuras de proa, ao lado dos Niagara, DJ Nigga Fox, Nidia Minaj ou Photonz, da editora discográfica Príncipe, que segue essa filosofia de fusão musical e multiculturalidade à risca – nasceu em Lisboa em 1986 e, desde 2005, começou uma carreira de crescente sucesso como DJ. De verdadeiro nome Marlon Quintas dos Santos e Silva – o seu nome artístico é a junção do nome de uma personagem de um jogo de computador Starfox, da Nintendo, com as primeiras letras de Marlon --, DJ Marfox juntou-se nesse ano a dois companheiros, DJ Pausas e DJ Fofuxo, para criar os DJs do Guetto. O resultado dessa colaboração foi uma dupla-colectânea, “DJs do Guetto Vol.1”, onde também participavam outros DJs como Fofuxo, Nervoso ou Jesse, lançada em 2006. E logo esse som – ou essa batida ou esse batuque, como se lhe quiserem chamar – chamou a atenção da imprensa nacional internacional. Em Janeiro de 2012 seria editado o já histórico EP de quatro temas “Eu Sei Quem Sou”, que marcaria a estreia de DJ Marfox nos discos em nome próprio e da própria editora Príncipe. Outros marcos importantes da carreira discográfica de Marfox são a edição, em 2014, de “Lucky Punch” através da editora norte-americana Lit City Trax (que lhe valeu rasgados elogios da revista “Rolling Stone” norte-americana) e a remistura do tema "Water Fountain", de tUnE-yArDs, em que o kuduro encontra o funk carioca dos Pearls Negras, e, já este ano, a edição da colectânea “Revolução 2005-2008”, através da Optimus Discos, que reúne as suas primeiras gravações como “Funk em Kuduro”, “Drift Furioso” ou “Aiué Remix”(temas que também se podem encontrar na reedição de “DJs do Guetto Vol. 1” na Príncipe, em 2013). Cereja no topo do bolo, a respeitadíssima Warp está a editar uma colectânea de nome “Cargaa 1” em que aparecem temas de DJ Marfox, DJ Nedwyt Fox, DJ Nigga Fox, Blacksea Não Maya, Ly-COox – Good Wine.
Primeiro a partir da Quinta da Vitória e agora a partir da Quinta do Mocho, na Portela de Sacavém – e com passagem por palcos em variadíssimas grandes cidades do mundo, incluindo Nova Iorque (e o seu Museu MoMA) – DJ Marfox aterra hoje no Med de Loulé. E vai deixar-nos com asas nos pés.